O
crescimento - prazeroso - do turismo rural no Brasil
O
campo abre as porteiras
Sérgio Túlio Caldas
ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE NAS FLS.40/44, DA EDIÇÃO 34 - ANO IX - JAN/FEV/MAR - 2006,
DA REVISTA "SER MÉDICO", PUBLICADA PELO CONSELHO REGIONAL
DE MEDICINA DO ESTADO DE SÃO PAULO.

Pelas amplas janelas abertas à imensidão do
campo, que ainda exala o frescor da terra molhada, os sons
vão entrando aos poucos: mugidos, um trinado distante,
o relinchar repentino no pasto ao lado. Na cozinha, os aromas
do café fresco, dos pães e dos bolos recém-saídos
do forno anunciam que o dia está começando.
A conversa é animada naquele ambiente levemente aquecido
pelo fogão à lenha.Os causos se emendam uns
aos outros e provocam boas risadas. Assim é o início
da rotina diária de quem mora no campo. E também
de quem está ali de visita, descobrindo os prazeres
e a cultura peculiares da vida rural – um interesse, aliás,
cada vez maior entre os turistas brasileiros e também
estrangeiros.
O desejo de estar em contato com a simplicidade do campo
e com nossas raízes caipiras é notável.
Conforme os números indicam, a mala de viagem dos
brasileiros está deixando de levar apenas roupas
de praia. Agora, também carrega trajes para cavalgar
e caminhar em matas, rumo ao vasto interior do país
– uma região farta em costumes, culinária,
natureza e histórias ainda a serem descobertas. Também
conhecido como agroturismo, o segmento experimenta uma evolução
inédita: segundo dados do Ministério do Turismo,
divulgados no início de 2006, a modalidade vem crescendo
cerca de 15% ao ano.
Uma das razões dessa procura pode ser explicada pelo
generoso leque de opções oferecidas. O turismo
rural agrega atividades cotidianas do campo, como plantio
e colheita, manejo do gado, pesca e culinária regional;
ao mesmo tempo em que proporciona caminhadas junto à
natureza, observação de aves, cavalgadas e
práticas de esportes de aventura, como rafting e
arvorismo. Não bastassem tantas atividades, há
ainda a hospitalidade rural: o viajante é recebido
na própria casa onde moram os donos e tratado como
se fosse alguém da família em visita.
A alternativa de lazer rural também está se
transformando num negócio promissor aos empresários
do campo. De acordo com a Associação Brasileira
de Turismo Rural (Abraturr), existem cerca de 12 mil empreendimentos
dedicados ao segmento. “Em 1994, quando criamos a entidade,
não passava de 400”, recorda Carlos Solera, presidente
da Abraturr. Segundo ele, o agroturismo gera cerca de 500
mil empregos diretos e indiretos, com faturamento próximo
dos R$ 2,5 bilhões em 2005.
Esse desenvolvimento não deve ser medido apenas em
números. O turismo no campo vem experimentando uma
profissionalização espetacular. Instituições
públicas e privadas, como o Sebrae, o Senac, a Federação
das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg),
o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), além
de organizações ambientalistas como a Biodiversitas,
formam parcerias, reúnem-se em congressos e feiras
com o objetivo de promover o segmento. Entre as metas prometidas
pelo Ministério do Turismo até o final de
2007, estão a criação de novas oportunidades
de trabalho no campo e o resgate do patrimônio cultural
e natural do interior do país.
“O turismo rural favorece a auto-estima da gente do campo”,
diz Alexandre Costa Marques, presidente da regional da Abraturr
no Mato Grosso do Sul, proprietário da Baía
Grande, uma fazenda de 1.800 hectares próxima à
cidade de Miranda (MS) e repleta de animais da fauna pantaneira.
Marques conta que, em sua região, o agroturismo tem
permitido a diversificação de profissões
na roça (como a de guias turísticos e artesãos)
e criado novos empregos – principalmente para as mulheres.
“Muitas esposas que antes ficavam em casa, enquanto o marido
saía para a lida no campo, hoje trabalham nas propriedades
abertas ao turismo”, exemplifica ele, que treinou cozinheiras
e arrumadeiras para atender os turistas que chegam à
Baía Grande.
“O Mato Grosso do Sul abriu definitivamente suas porteiras
ao turismo rural”, se entusiasma o fazendeiro Gerson Prata,
da Fazenda Santa Inês, nos arredores de Miranda. Tradicional
criador de gado, Prata resolveu receber viajantes em sua
casa por “sentir-se solitário”. Acabou tomando gosto
pelo negócio e investiu no conforto de seus hóspedes.
Mandou construir uma tirolesa sobre a bela lagoa da fazenda,
montou uma sala de jogos e outra de leitura, capacitou empregados
a guiar turistas por passeios a cavalo, organizou um cardápio
especializado em pratos típicos pantaneiros, como
o pacu recheado de farofa e temperado com ervas frescas,
colhidas na horta atrás da cozinha.
No Pantanal, chama a atenção uma atração
especial, adequada aos que querem mais intimidade com as
riquezas da região. Os pantaneiros criaram diversos
“roteiros integrados”, como a Rota Pantaneira, que durante
cinco dias de cavalgada leva o turista a diversas fazendas
e pousadas das regiões de Miranda e de Aquidauana.
Pelo caminho, eles cruzam planícies alagadas, avistam
uma diversidade impressionante de bichos, como tuiuiús,
araras-azuis, tamanduás e jacarés. O passeio
possibilita conhecer o dia-a-dia da gente local e participar
de uma autêntica comitiva pantaneira, conduzindo cabeças
de gado ao som do berrante.
Outro Estado com vocação natural ao turismo
rural é Minas Gerais. Além de contar com a
mais bem estabelecida organização estadual
do setor, a Associação Mineira de Empresas
de Turismo Rural (Ametur), Minas tem atributos suficientes
para tornar-se o principal destino da modalidade no país,
conforme acredita Andréia Roque Arantes, diretora
da Abraturr. “A autenticidade mineira, a hospitalidade,
a gastronomia e a natureza preservada, aliadas à
cultura e à história que despertam grande
interesse, formam um diferencial e tanto para Minas Gerais”,
diz. Não foi à toa que o Banco de Desenvolvimento
de Minas Gerais (BDMG) criou uma linha de crédito
para micros, pequenas e médias empresas interessadas
em investir na Estrada Real – a jóia turística
mineira do momento, que no longo roteiro conta com patrimônios
inestimáveis como Tiradentes, Ouro Preto e Diamantina,
além do encanto do cerrado e dos engenhos produtores
de algumas das melhores cachaças nacionais.
Os roteiros de campo oferecidos em quase todo o país
costumam conjugar ecologia, história e cultura. Assim
como a estrada mineira, outro bom exemplo é a Rota
dos Tropeiros, que refaz o caminho dos comerciantes do século
XVIII: vai da antiga Campos de Viamão (hoje Porto
Alegre, RS), passa por Lages (SC) e por Castro (PR), até
chegar a Sorocaba (SP), onde, no passado, havia uma grande
feira.
Outros Estados também criam suas atrações
culturais: em Pernambuco, pode-se hospedar em antigos engenhos
e aprender como é realizado o cultivo da cana-de-açúcar.
No Ceará, toma-se banho em açudes; em Santa
Catarina pode ser feito o roteiro de inverno na serra, conhecendo
a produção de pinhão, vinho e flores.
Nos arredores do município capixaba de Venda Nova
do Imigrante, é possível visitar propriedades
produtoras de artesanato em madeira, queijo e quitutes italianos.
No sul mineiro e nos interiores de São Paulo e do
Rio de Janeiro, fazendas centenárias de café
abrem suas portas e histórias aos visitantes.
A atenção com essas propriedades, símbolos
de um período de riqueza e opulência, não
é pouca. Em fevereiro deste ano, foi lançado
oficialmente o consórcio Fazendas doBrasil, que pretende
colocar o país no circuito internacional do turismo
rural de alto padrão. Iniciativa do Sebrae e do Instituto
de Preservação e Desenvolvimento do Vale do
Paraíba (Preservale), o projeto faz parte do programa
Europa das Tradições, cujos roteiros turísticos
incluem áreas rurais de Portugal, França,
Irlanda, Reino Unido e Holanda. “Esse modelo de turismo
valoriza nosso patrimônio e nossa história”,
diz Sonia Mattos Lucas, diretora do Preservale.
“O turismo rural tem potencial para se tornar um dos segmentos
turísticos mais dinâmicos e atraentes do Brasil”,
afirma Solera.

*
Sérgio Túlio Caldas é jornalista e
escritor, autor dos livros Nas fronteiras do Islã,
ed. Record, 2002; Peixe-boi, a história da conservação
de um mamífero brasileiro, ed. DBA 2004 e Arara Azul,
ed. DBA, 2005, entre outros.
As
fotos são de Victor Andrade.
De
olho no campo
Como
está o turismo rural no Brasil:
•
12.000 empreendimentos
• 65% das propriedades têm até 50 hectares
• 90% dos negócios são administrados por mulheres
• Em média, a idade dos turistas varia de 20 a 50
anos
• A maioria visita o campo com a família
Fonte:
Abraturr